3. REPORTAGENS junho 2013

1. IDIAS  O FUTURO DA INTERNET (E DO MUNDO) SEGUNDO O GOOGLE
2. CAPA  COMO LIDAR COM A TRISTEZA
3. SADE  PAGANDO OS PECADOS
4. ATUALIDADES  TERRA SAGRADA
5. ECONOMIA  ONDE O FINANCIAMENTO COLETIVO D CERTO NO BRASIL
6. ZOOM  A VIDA IMITA A ARTE ABSTRATA
7. CINCIA  OS BASTIDORES DO IGNOBEL
8. SADE  RAIVA
9. AVENTURA  UMA FAZENDA NO FIM DO MUNDO

1. IDIAS  O FUTURO DA INTERNET (E DO MUNDO) SEGUNDO O GOOGLE
Daqui a dez ou vinte anos, a internet ser muito diferente do que  hoje. Mas como? Eric Schmidt, presidente do conselho administrativo do Google, e Jared Cohen, diretor de ideias da empresa, escreveram um livro em que tentam responder a essa pergunta: The New Digital Age, recentemente lanado nos EUA. Nele, fazem algumas previses surpreendentes, e nem sempre otimistas, para o futuro. Veja quais so. 
REPORTAGEM / Anna Carolina Rodrigues
ILUSTRAO / Raul Aguiar
DESING / Ricardo Davino
EDIO / Bruno Garattoni

COMPORTAMENTO
1- O PASSADO VAI NOS CONDENAR
     No mundo fsico, voc sempre pode mudar. Pode mudar de cidade, de aparncia, de estilo, de profisso, de opinio. Na internet, no  assim: tudo o que voc j fez ou disse fica gravado para sempre. Cada vez mais, usamos a rede para nos relacionar uns com os outros. Isso est gerando uma massa de dados to grande, cobrindo tantos detalhes das nossas vidas, que no futuro ser muito difcil de controlar  e poder nos comprometer. "Nunca mais escreva [na internet] nada que voc no queira ver estampado na capa de um jornal", advertem Cohen e Schmidt. 
     A internet no esquece nada. E isso afetar a vida de todo mundo. Se uma criana chamar uma colega de "gorda" na rede, por exemplo, poder manchar a prpria reputao pelo resto da vida  pois todo mundo saber que, um dia, ela praticou bullying. Inclusive potenciais empregadores, que podero deixar de contrat-la. Uma foto, um comentrio, um post infeliz poder trazer consequncias por muito tempo. "Os pais tero de conversar com os filhos sobre segurana e privacidade [online] antes mesmo de falar sobre sexo", dizem os autores. Schmidt diz que a internet deveria ter um boto "delete", que permitisse apagar para sempre eventuais erros que cometamos online. Isso  muito difcil, pois algum sempre poder ter copiado a informao que queremos ver sumir. Mas surgiro empresas especializadas em gerenciar a nossa reputao online, prometendo controlar ou eliminar informaes de que no gostamos, e empresas de seguro virtual, que vo oferecer proteo contra roubo de identidade virtual e difamao na internet. "A identidade online ser algo to valioso que at surgir um mercado negro, onde as pessoas podero comprar identidades reais ou inventadas", dizem os autores. 
     O fim do esquecimento ter consequncias profundas  que, para o Google, incluiro at a escolha do nome das pessoas. Alguns casais batizaro seus filhos com nomes bem diferentes, que no sejam comuns, e registraro esses nomes nas redes sociais antes mesmo do nascimento da criana, tudo para que ela se destaque. Outros preferiro nomes comuns e genricos, do tipo "Jos Carlos", que sejam muito frequentes e tornem mais difcil identificar a pessoa, permitindo que se esconda na multido e mantenha algum grau de privacidade online. Hoje, esse tipo de coisa soa meio estranho. No futuro, talvez no seja.

POLTICA 
2- HAVER UM ATAQUE TERRORISTA ENVOLVENDO A INTERNET
O Vrus Stuxnet, supostamente criado por Israel, foi usado para atacar o programa nuclear iraniano, e quase todas as semanas surge um novo caso de empresa ou universidade americana que teve seus computadores invadidos por hackers chineses. Ou seja: a guerra digital j  uma realidade. Ela tende a aumentar, tanto que o livro do Google fala no surgimento da Code War (guerra de cdigos, em ingls), um conflito que envolveria vrios pases atacando as redes de computadores uns dos outros. Seria um conflito longo e cheio de pequenas sabotagens, sem declaraes diretas de guerra, semelhante  Guerra Fria. "Os pases vo fazer coisas online uns com os outros que seriam muito provocadoras [como sabotar usinas, espionar, derrubar o acesso  internet] de se fazer offline. Isso vai permitir que os conflitos aconteam no campo de batalha virtual, enquanto o resto permanece calmo." Mas o fato de a guerra ser digital no significa que ela no v derramar sangue. Os executivos do Google imaginam um novo 11 de Setembro, que envolveria uma sequncia de aes terroristas online e offline. Um hacker poderia invadir o sistema de trfego areo de algum pas, por exemplo, e induzir os avies a voarem na altitude errada  para que eles se choquem uns contra os outros. A, com a ateno mundial voltada para esse caos areo, viria a segunda fase do ataque; bombas posicionadas estrategicamente em Nova York, Chicago e em So Francisco explodiriam. Nas horas seguintes, uma nova onda de ataques virtuais atrapalharia a comunicao e a mobilizao da polcia, dos bombeiros e ambulncias. Em seguida, outro ataque poderia prejudicar os sistemas de distribuio de gua, energia, leo e gs do pas. "No futuro, a fora dos grupos terroristas no vir da disposio de morrer por uma causa, e sim do domnio tecnolgico que eles possurem", prevem os autores.

3- O GOVERNO VAI MIGAR PARA A WEB
Ir a uma repartio pblica costuma ser uma experincia desagradvel, cheia de burocracia e filas. Mas e se essa repartio fosse transformada num site  no qual voc pudesse resolver todos os seus problemas? Eric Schmidt e Jared Cohen propem que o governo migre para a internet e seja capaz de funcionar por meio dela. Isso tornaria a operao mais eficiente, permitindo dar um atendimento melhor  populao, e tambm seria uma vantagem em caso de desastres naturais. Se o prdio de um ministrio fosse destrudo por um terremoto, por exemplo, a instituio poderia continuar a funcionar online, com os funcionrios se conectando de qualquer PC com acesso  internet.

4- A REDE VAI SE FRAGMENTAR
A internet foi criada, no final dos anos 60, para conectar as redes internas de universidades e instituies do governo americano. Ou seja: ela , por definio, uma unio de pequenas redes (da seu nome, que significa "inter-rede").  essa unio que nos permite acessar qualquer site, de qualquer lugar do mundo, e foi ela a grande responsvel pela universalizao da internet. Mas, no futuro, no ser assim. Com a desculpa de combater o terrorismo e os crimes online, e tambm por questes culturais, alguns pases criaro suas prprias regras  e, na opinio do Google, isso acabar resultando em internets nacionais, com as caractersticas de cada lugar. E o que entra e sai de cada uma delas ser monitorado, com direito a censura. Mais ou menos como j acontece em pases como Ir e China  s que no mundo inteiro. Essa previso pode parecer exagerada, mas tem certo respaldo no mundo real. Em maro deste ano, o Parlamento Europeu discutiu uma lei que iria proibir o contedo pornogrfico na internet (e acabou no sendo aprovada).  provvel que, no futuro, os Estados tentem exercer algum controle sobre a internet. Outra tendncia, segundo Cohen e Schmidt,  a formao de alianas digitais entre pases que tem costumes e opinies semelhantes. Poder surgir uma internet regional cobrindo vrios pases do Oriente Mdio, por exemplo, com contedo e regras determinadas por eles. Em contrapartida, minorias ou insurgentes tambm podero ter seu pas online, como a criao de uma internet palestina, por exemplo. "O que comeou como a World Wide Web comear a se parecer mais com o prprio mundo, cheio de divises internas e interesses divergentes", dizem os autores. Eles imaginam at a criao de uma espcie de visto, que controlaria quem pode ou no entrar na internet de cada pas. "Isso poderia ser feito de forma rpida e eletronicamente, exigindo que os usurios se registrem e concordem com certas condies de acesso  internet de um pas." '

SOCIEDADE
5- UM COMPUTADOR SABER TUDO SOBRE VOC
     Quer saber quais informaes o Google tem sobre a seu respeito? Acesse o site google.com/dashboard e voc provavelmente ir se surpreender. So dezenas de informaes, que incluem quais buscas voc fez, quem so seus amigos, sua agenda de compromissos, seu endereo, onde voc vai e todo o contedo dos seus e-mails e documentos. O Google j sabe muita coisa. Mas, no futuro, poder saber ainda mais. Isso porque as informaes que hoje ficam em bancos de dados separados, como a sua identidade (RG), registros mdicos e policiais e histrico de comunicaes, sero unificadas em um nico  e gigantesco  arquivo. Com apenas uma busca, ser possvel localizar todas as informaes referentes  vida de uma pessoa. Algumas delas s poderiam ser acessadas com autorizao judicial, mas sempre existe a possibilidade (e o receio) de que isso acabe sendo desrespeitado. Um exemplo recente: em maio, vazou na internet um documento no qual o FBI autoriza seus agentes a grampear os e-mails de qualquer pessoa, mesmo sem permisso de um juiz. 
     Lutar contra isso, e revelar poucas informaes pessoais na internet, ser visto como atitude suspeita. Cohen e Schmidt acreditam que o governo v criar uma lista de "pessoas offline", gente que no posta nada nas redes sociais  e por isso supostamente tem algo a esconder. "Elas podero ser submetidas a um conjunto de regras diferentes, como revista mais rigorosa no aeroporto ou at no poder viajar para determinados locais", dizem.

6- UM GRUPO VAI DESVENDAR AS MENTIRAS DA INTERNET
 comum que os governos falsifiquem ou adulterem informaes. Era assim na URSS (Stlin mandava apagar pessoas de fotos histricas) e  assim no Ir e na Coreia do Norte, que j foram pegos usando Photoshop para manipular imagens militares. Por isso, os executivos do Google preveem a criao de uma entidade, independente de qualquer governo, que seria responsvel pela fiscalizao e investigao dos dados divulgados na internet, principalmente os que envolvessem poltica e conflitos armados. Uma espcie de Cruz Vermelha virtual, que teria representantes de vrios pases e funcionaria como referncia para os rgos de imprensa.

7- MAIS PESSOAS TERO (MENOS) PODER
     A internet permite que as pessoas se informem, se comuniquem e se organizem de forma livre e independente. Ou seja, ela d poder s pessoas. Com o acesso a novas ideias, populaes vo questionar mais seus lderes. Imagine o que acontecer quando o habitante de uma tribo na frica, por exemplo, descobrir que aquilo que o curandeiro local diz ser um mau esprito na verdade no passa de uma gripe. "Os governos autoritrios vo perceber que suas populaes sero mais difceis de controlar e influenciar. E os Estados democrticos sero forados a incluir mais vozes em suas decises", escrevem Jared Cohen e Eric Schmidt. 
     A Primavera rabe  um bom exemplo disso. A internet teve um papel fundamental na organizao dos grupos populares que derrubaram os governos de quatro pases (Tunsia, Egito, Lbia e Imen) e abalaram vrios outros. No caso egpcio, o prprio Google acabou sendo envolvido  pois Wael Ghonim, executivo da empresa no Egito, entrou por conta prpria em mobilizaes online (e ficou 11 dias preso por causa disso). 
     Na era da internet, minorias antes reprimidas tambm passam a ter uma voz. Mas, na opinio do Google, isso no ter necessariamente um grande efeito prtico.  o chamado ativismo de sof. A pessoa pode at curtir e compartilhar contedo relacionado a uma causa, mas, na hora de ir para as ruas, a coisa fica diferente. A mobilizao virtual nem sempre se traduz em engajamento real. Alm disso, a internet permite que os movimentos sociais surjam e cresam muito rpido, de forma descentralizada e diluindo o poder entre muitas pessoas. Isso acaba fazendo com que esses movimentos tenham muitos lderes fracos, em vez de poucos lderes fortes. 
     Para sustentar essa tese, Cohen e Schmidt citam a Primavera rabe, em que os regimes totalitrios e os ditadores caram, mas seu lugar acabou sendo tomado por governos muulmanos, que no so particularmente democrticos, em vez de lideranas egressas da internet. "Sem estadistas, no haver indivduos qualificados o suficiente para levar um pas adiante. Corre-se o risco de substituir uma forma de autocracia por outra", dizem os autores. Em suma: a internet distribui o poder, mas isso no necessariamente resulta na formao de grandes lderes. Nelson Mandela no era uma celebridade de Facebook.

PARA SABER MAIS
The New Digital Age
Eric Schmidt e Jared Cohen
Knopf, 2013.


2. CAPA  COMO LIDAR COM A TRISTEZA
Nunca tanta gente teve depresso no mundo. So 350 milhes de pessoas nessa condio  boa parte nem sabe disso. O que est acontecendo conosco? O que devemos fazer a respeito?
REPORTAGEM / Carol Castro
EDIO / Felipe van Deursen

A morte era iminente. E lenta. A notcia sobre a doena terminal do marido afogou Estela na maior dor possvel. Ela no sabia como agir. Cuidou dele todos os dias, por cinco anos. Mas era mais do que podia suportar. Sentia raiva do mundo. Ningum poderia entender de verdade  a dor era dela. Ainda assim, queria a ajuda dos amigos, mas sem ter de pedir, sentia-se invadida. Se tentassem ajudar, ficava brava. Se no tentavam, pior ainda. Aos poucos se afastou de todos, isolando-se na prpria e devastadora dor. A vida no tinha mais graa. E no era um momento passageiro. Tudo era chato, sem cor, sem prazer. Os tempos de alegria haviam sido uma iluso tola, pensava. Estela sabia que nunca mais encontraria esse falso prazer. Depois piorou. Quando o marido morreu, ela se sentiu aliviada. E esse alvio a destroou com uma sensao de culpa do tamanho do mundo. Queria morrer junto. A depresso se fincou nela.

     Estela, que prefere usar um nome fictcio,  uma entre as 350 milhes de pessoas com depresso no mundo. Um nmero que s aumenta e que virou um problema de nossa era: s nos Estados Unidos, o consumo de antidepressivos aumentou 400% em 20 anos. Mas, historicamente, depresso  um conceito que surgiu outro dia. Por sculos, ela era uma doena misteriosa chamada apenas de melancolia. "Perdi toda a alegria e descuidei-me dos meus exerccios habituais", disse Hamlet logo aps o assassinato do pai. Se vivesse hoje, o personagem de Shakespeare certamente entraria na mira dos mdicos. Ele seria enquadrado no DSM-V, a bblia da psiquiatria, que identifica e diagnostica os transtornos mentais. Hamlet, sob os olhos da medicina contempornea, teve depresso. 
     Dos tempos de Shakespeare para c, muita coisa mudou. Tristeza no  doena. Depresso , com sintomas reconhecidos, padronizados e tratamentos especficos.  uma indstria que desenvolveu remdios para combater esse mal que deve crescer ainda mais. 
     A Organizao Mundial da Sade aposta que em 2030 a depresso j ser a doena mais comum do mundo,  frente de problemas cardacos e cncer. Vivemos uma espcie de epidemia de mal-estar: h mais pessoas deprimidas do que nunca. Ironicamente, justo em uma poca em que a busca pela felicidade  algo quase obrigatrio. Voc conhece algum que no queira ser feliz? Soa bizarro e anacrnico. 
     Nosso estilo de vida gera angstia e tristeza  que podem levar  depresso.  grave, ficamos vulnerveis a ela, com o risco maior de cair no abismo: passar a barreira dos sintomas leves e entrar numa depresso profunda.  como se a vida fosse uma calada esburacada  nem todo mundo que tropea cai e se arrebenta. D para controlar a queda, se segurar etc. Mas quem desaba no cho corre o risco de no se levantar mais: 15% das pessoas com depresso grave cometem suicdio.  
     O medo da depresso e a busca incessante por felicidade fizeram muita gente fugir da tristeza como se ela fosse uma peste dos nossos tempos. Quem quer ter isso? Quem quer ficar perto de algum que tem? Isso impulsionou o desenvolvimento de remdios com efeitos colaterais cada vez menos nocivos. Mas tambm levou a uma certa banalizao. "Eu tenho a impresso de que todo mal-estar virou depresso", diz Mrio Corso, psicanalista e autor do livro A Psicanlise na Terra do Nunca. " uma coisa da nossa poca. Depresso  a palavra que serve para tudo, as pessoas no sabem o que tm e dizem que esto deprimidas", explica. Tanya Luhrmann, antroploga especializada em psicologia da Universidade Stanford, nos EUA, acha que h um clima de exagero. "Estou certa de que ns damos muito remdio s pessoas e que tristeza comum  tratada com medicao", diz. Saber a diferena entre tristeza e depresso  essencial. "A tristeza tem motivos, a depresso no tem motivo nenhum", explica Corso. Na tristeza, choramos pela morte de algum. Ficamos tristes, mas a dor passa, por mais que a saudade no. Na depresso, a dor no passa. A pessoa no sente mais prazer em nada. E foi nessa zona cinzenta de desinformao que nasceu a farra das farmcias. A busca por um comprimido mgico que promete milagres, transformando dor em felicidade, levou muita gente a desaprender a lidar com a tristeza. 

A INDUSTRIA DA DEPRESSO 
     Sigmund Freud conhecia um remdio legal para curar depresso. Chamava-se cocana. Usurio e entusiasta da droga, ele a receitava para pacientes que sofriam de tristeza recorrente e sem explicao. Antes disso, os estimulantes mais receitados eram morfina e herona  at descobrirem que ambas viciavam e tinham efeitos colaterais perigosos. Mas a, veja s, viram que cocana tambm era um problema. Em 1914, os EUA foram o primeiro pas a proibi-la. S na dcada de 1950 surgiu um substituto eficaz contra esse vazio da arma. Como na origem de tantos outros remdios, miraram aqui e acertaram ali. O Marsilid surgiu como uma tentativa de encontrar a cura para a tuberculose, mas quem o tomava ficava um tanto alegre. Ningum sabia explicar por qu. At que em 1965 o psiquiatra americano Joseph J. Schildkraut elaborou a primeira teoria para explicar os efeitos do remdio e, de quebra, as causas da depresso. Ele dizia que a tristeza  um descompasso bioqumico no crebro ligado  serotonina, dopamina e noradrenalina, os neurotransmissores que regulam o humor e as sensaes de prazer e recompensa. Se os nveis dessas substncias estivessem baixos, era indcio de depresso. Bastaria ento tomar algo que aumentasse a taxa, e tudo ficaria lindo. E o princpio ativo do Marsilid era a iproniazida, que eleva, justamente, o nvel de serotonina. 
     Foi uma mina de ouro para a indstria farmacutica. Tratar doenas mentais deixou de ser coisa s de gente extremamente doente,  beira do hospcio. O marketing dos laboratrios passou a mirar tambm em mes estressadas, trabalhadores cansados e qualquer cidado propenso a uma fase depr na vida. Desde a dcada de 1960, surgiram vrios remdios que traziam bem-estar, sempre com ao direta na qumica cerebral. Mas as vendas nunca decolavam, porque os efeitos colaterais eram muito fortes, como inquietao, insnia e dificuldade em urinar. S em 1988 surgiu um medicamento que no s mudou de vez as cifras da indstria como conseguiu extravasar o universo das gndolas das farmcias e virar um cone cultural: o Prozac. Com efeitos colaterais bem menores, a "plula da felicidade", como foi chamada na poca, entrou para a lista dos medicamentos mais vendidos no mundo. Desde ento, surgiram cerca de 30 remdios destinados a combater a depresso. Mas nenhum deles ficou famoso como o Prozac, que, segundo a fabricante Eli Lilly, foi vendido a 90 milhes de usurios nesses 25 anos, enchendo os cofres da empresa. Em 2000, um ano antes de a patente expirar, ela faturou mais de US$ 2 bilhes com o remdio, cerca de 50% a mais que a Pfizer ganhou no mesmo ano com o Viagra. 
     Dos anos 90 para c, o antidepressivo ficou comum. Para toda tristeza ou desnimo, ele passou a ser considerado um tratamento em potencial. Mas o Prozac no teria sido um megahit da dcada to grande quanto Carla Perez ou Jurassic Park se no houvesse quem o receitasse.  
     Tudo que era tipo de mdico passou a indicar antidepressivos. Tristeza aqui, melancolia acol, tome remdio goela abaixo que melhora. S que, como era de se esperar, nem sempre os diagnsticos batiam com o problema. Foi o que aconteceu com o professor aposentado Antnio Alves. Aos 45 anos, ele se sentia desanimado, sem vontade de fazer tarefas dirias. Procurou um psiquiatra que logo o diagnosticou com depresso e indicou um remdio. O tratamento surtiu efeito no incio, mas depois perdeu a forca. Desanimado, Antnio buscou uma segunda opinio. Ao se consultar com um clnico geral, descobriu que seu problema era outro: a andropausa havia chegado mais cedo. A contragosto do psiquiatra, Antnio abandonou os antidepressivos e passou a tomar repositores de hormnios. No teve mais crise. 
     Alm do fato de antidepressivos nem sempre surtirem efeito, agora a prpria teoria que explica seu funcionamento est sendo questionada. Cinquenta anos depois, a teoria dos baixos nveis de serotonina no  mais to forte. Alguns desses remdios, em vez de elevar a concentrao da substncia, abaixam ainda mais. Para complicar, nem todo crebro deprimido tem pouca serotonina. Mesmo assim, ainda se acredita que a depresso , sim, um desequilbrio qumico. O problema  que no se sabe ao certo quais so os neurotransmissores envolvidos. 
     Ou seja, no que fosse m-f da classe mdica receitar antidepressivo a torto e a direito.  que depresso  uma doena conhecida h pouco tempo e ainda muito misteriosa. Ela no  como o cncer, em que um exame de imagem mostra a regresso ou o aumento de um tumor, e uma bipsia revela o estgio e o grau da doena. No h resultados impressos para mostrar se o tratamento teve resultado. 
     Existe a suspeita ainda que a culpa do caos qumico no crebro seja do estresse. Em resposta  tenso do ambiente externo, o corpo produz mais cortisol e outros hormnios do estresse. O excesso pode alterar a bioqumica cerebral e causar depresso. Se o problema for mesmo esse, ento a infelicidade crnica pode ser uma resposta ao nosso estilo de vida. Estamos mais tristes, tambm, por causa da nossa sociedade. 

DOR NA ALMA 
     Os evolucionistas acreditam que a depresso  uma caracterstica do nosso crebro, provocada por algo que nos ajudou a sobreviver: somos um bicho socivel. Esse instinto de socializao e cooperao facilitou a vida dos nossos ancestrais  conseguir comida em grupo era bem mais fcil. Mas ele abriu a porteira para a depresso, porque nosso humor sempre foi influenciado por esse convvio em sociedade. Quando o crebro se desenvolveu, 200 mil anos atrs, ningum precisava tomar grandes decises. Ele foi adaptado para lidar com comunidades pequenas, de at 70 membros. A pessoa no precisava se encontrar na vida, ela j nascia inserida em um contexto mais bem definido. Suas opes eram poucas, determinadas por etnia, grupo social, famlia etc. No havia tantas opes e decises. E a, quanto mais complexa a vida ficou, maior a propenso  depresso. Hoje, so zilhes de escolhas,  difcil ter certeza sobre qual ser a melhor  e qual tomamos s para ser aceitos nessa vida em sociedade. Qual o melhor emprego, a melhor namorada, a melhor cidade para se viver. O crebro s vezes parece incapaz de lidar bem com isso. No   toa que muitos depressivos se queixam de ter surtado por s atender s vontades alheias, em vez de seguir os prprios desejos. 
     Em comunidades mais simples, os ndices de depresso so menores. Um exemplo so os kaluli, etnia da Papua-Nova Guin que vive da caa, pesca e agricultura de subsistncia. O antroplogo Edward Schieffelin, da Universidade College de Londres, entrevistou 2 mil kaluli em dez anos de pesquisa. S uma pessoa apresentou sinais de depresso  uma taxa 20 vezes menor que a do Brasil. Schieffelin acredita que a explicao esteja no estilo de vida. Os kaluli usam muito o corpo, se alimentam de comidas naturais e se expem mais ao Sol. A verdade  que todos precisamos de ar livre. A luz solar aumenta a produo de hormnios que deixam voc mais disposto, mais animado. "Existe uma relao j comprovada entre a falta de sol e a depresso. No   toa que nos pases do norte europeu o ndice de depresso  maior que aqui", explica Raphael Boechat, psiquiatra e professor da Universidade de Braslia. Ao mesmo tempo em que esto entre os pases mais felizes do mundo, graas  excelente qualidade de vida, os pases escandinavos tm altos ndices de depresso. 
     A psicanlise leva a questo um pouco mais longe. No livro O Tempo e o Co, a psicanalista Maria Rita Kehl culpa nossa sociedade consumista pelo vazio da alma. 
     A mxima do nosso tempo  vencer. E vencer significa ser feliz. No meio do caminho, escolha uma profisso, tenha amigos, compre um carro, financie uma casa, case, viaje, v ao shopping, tora para um time, compre, use, abuse, jogue, desfile, passeie, julgue, brilhe, dance, transe, descanse. A publicidade teria transformado a felicidade em uma sucesso de frases imperativas que nos faz consumir. S que isso no preenche nada. E o vazio continua aqui dentro. 
     O depressivo, descreve Kehl, no consegue ver graa em nada disso, em nenhuma dessas conquistas. "A vida tinha um filtro cinza", diz a publicitria Rachel Juraschi, descrevendo o que sente um depressivo. "No era s tristeza, era preguia de viver". Ela suspeita que desde a adolescncia, "uma poca sem boas lembranas" , sofria de depresso. Mas foi s aos 28 anos, com o casamento e o trabalho em crise, que a doena atacou para valer. "Nem banho eu tomava mais", lembra. Deveria se divertir, se informar, socializar, conforme manda o protocolo. Mas, assim como em outros depressivos, nada disso fazia sentido. A pessoa no se diverte  e se culpa por isso. A procura tratamento. "Junto com a medicao, o que se vende  a esperana de que o depressivo possa rapidamente normalizar sua conduta sem ter de se indagar sobre seu desejo", escreve Kehl.  como se buscasse uma plula para se ajustar  vida. Um desejo de ser normal. 
     O uso de antidepressivos pode ter se tornado algo banal e muitas vezes irresponsvel. Mas sua popularizao derrubou parte do medo de tratar a depresso. Ficou mais fcil sair do armrio e aceitar isso como uma doena real. "Quando vi que tinha amigos da mesma idade tomando, perdi o preconceito", diz Rachel. Os remdios deram aos depressivos uma dose de esperana. E essa esperana ajuda tanto que pessoas que tomam s gua com acar achando que  antidepressivo relatam melhora de humor. O psiquiatra americano Irving Kirsch analisou 38 testes clnicos com 3 mil participantes que, separados em grupos, lidaram com a depresso de quatro formas distintas: antidepressivos, remdio placebo, psicoterapia e nenhum de tratamento. Ele constatou que, enquanto em mdia 75% dos sintomas de quem tomou remdio melhoraram, 50% dos efeitos nos que s tomaram plulas de acar foram reduzidos. Ou seja, s 25% da melhora seria mrito do remdio. Ainda assim, a funo dos remdios no pode ser ignorada: quando a tristeza foge do controle, qualquer esperana serve como alento. O estilista Zanco Jnior considera os antidepressivos essenciais em sua vida. Ele toma h 13 de seus 30 anos, desde que teve uma crise de pnico em um shopping de Presidente Prudente, So Paulo, onde morava. Zanco j tentou largar os remdios, mas sentiu falta. Dormia mal, tinha indisposio. "Vivo bem com eles, me ajudam a tocar minhas coisas", diz. E, se tentou parar de tomar,  porque no quer passar o resto da vida sob medicao. "Um dia quero deixar de tomar. Se ficar bem". No  fcil. 
     Afinal, outras questes da vida moderna tambm deixam o corpo mais cansado. A enxurrada de informao com que lidamos todo dia no deixa o crebro descansar, o que aumenta as chances de pane. Viver em um ambiente desgastante, com mais tempo dedicado a trabalho que a lazer  um atalho para a depresso. Para piorar, essas mudanas so acompanhadas cada vez mais pela solido. Segundo o IBGE, mais de 12% das casas brasileiras s tem um morador  h dez anos, era menos de 9%. O nmero de solteiros tambm aumentou: 48% (ou 72 milhes) dos brasileiros acima de 15 anos, uma alta de quase 16% em dois anos. Se somarmos a divorciadas e vivos, a parcela da populao fora de um relacionamento srio chega a 60%.  muita gente. E os picos de depresso esto nesses grupos mais solitrios: solteiros, divorciados e vivos. Em uma realidade to propensa  depresso,  preciso, antes de tudo, saber lidar com a tristeza.

O LADO BOM DA TRISTEZA
     Vamos deixar claro uma coisa: nem toda tristeza  ruim. Muitas fazem parte desse jogo em que voc entra no momento em que nasce. Ficar sem presente no Natal, sofrer pelo gal da escola, ser reprovado no vestibular, perder um emprego, levar um p na bunda, brigar com um amigo, encarar a morte de algum e tantas outras mais fazem parte da vida. Todo mundo lida com elas, em maior e menor escala. "Se existe um lado bom  que a tristeza nos torna um pouco mais sbios do que no momento da euforia, quando a gente fica meio abobado.  uma boa hora para fazer um balano", diz o psicanalista Mrio Corso. A crise nos obriga a sair da zona de conforto e abre o caminho para avaliarmos a vida por novos ngulos e tomar rumos diferentes. 
     O problema  quando voc no consegue superar a crise. Sem saber como reagir  dor, mergulha numa tristeza que paralisa.  o caso de Estela. Durante a doena do marido, ela j havia comeado a fazer tratamento psicolgico e psiquitrico e participava de reunies no grupo de apoio mtuo Neurticos Annimos. Ia s reunies s para vomitar a dor que sentia e sair aliviada. Mas o efeito no durava muito, e a vida continuava um saco. Sentia dor mesmo quando algo bom acontecia. At que um dia ela decidiu no apenas falar, mas tambm prestar ateno aos desabafos dos outros. S a percebeu que eles tambm tinham problemas e que ela no estava sozinha. Sentiu carinho por elas. Recuperou o amor prprio e pelos outros, que a depresso havia levado embora. Deixou de se preocupar com o pensamento e julgamento alheios e passou a se aceitar e a valorizar suas vontades. "Tenho percebido que sanidade  quando voc consegue admitir o seu lado B, os seus defeitos", conta. Ela frequenta as reunies at hoje. Mas teve alta dos remdios. 
     Para conseguir isso, ela aprendeu a lidar com a situao e, principalmente, a reconhecer os prprios limites. O primeiro passo para se levantar do cho, ainda machucada, foi reconhecer o prprio descontrole emocional. Ela simplesmente deixava a raiva, o medo, a tristeza e outras emoes decidirem seu rumo. Explodia. Mas isso s dificulta as coisas. Parou de sentir pena de si, abandonou o papel de vtima. Nada poderia reverter seu trauma  mas a maneira de lidar com isso poderia ser uma deciso dela. Voltou a ser protagonista da prpria vida. Hoje, Estela aprendeu a lidar com os dias ruins. "Eu respeito muito a depresso. Tenho tanto medo dela quanto tenho do mar. Mas eu no deixo de entrar no mar, e tambm no deixo mais de viver", diz. 
     Grupos de apoio so uma boa sada para aprender a encarar o lado amargo da vida  mesmo que voc no esteja numa depresso profunda. "Tem gente que entra aqui porque perdeu a namorada e no consegue ficar feliz. Mas depois passa, fica bem, encontra outra pessoa e nunca mais volta", conta Estela. Essas terapias em grupo funcionam to bem quanto sesses com psiclogos que seguem a linha cognitiva-comportamental, que tenta ajudar o paciente a ver as coisas de outra forma, ou interpessoal, que foca nos problemas do presente. Essas duas so as formas de psicoterapia com os melhores resultados no tratamento da depresso. Ou seja, no d para apostar todas as fichas nos remdios. Eles podem resolver o lado bioqumico, mas o modo de lidar com os problemas ainda  contigo. 
     Andrew Solomon, autor de O Demnio do Meio-Dia, um livro autobiogrfico sobre depresso, diz que tudo pode funcionar, at tomar remdio de ponta cabea. Basta acreditar nos efeitos positivos. E foi por isso que ele encarou diversas terapias alternativas, desde tomar ch de uma planta chamada erva-de-so-joo, hipnose, homeopatia at participar de um ritual religioso em uma tribo africana. Alguns melhoraram o nimo do escritor, outros nem tanto. 
     Alm de Solomon, outras pessoas esto procurando alternativas para tratar a depresso. No Brasil, um grupo de pesquisadores viu na ayahuasca uma oportunidade. O ch  base de plantas amaznicas usadas em rituais religiosos, que d um efeito de bem-estar e tranquilidade, tem princpios ativos que agem direto no crebro e pode render no futuro novas linhas de antidepressivos. "Os efeitos teraputicos observados com a ayahuasca so praticamente imediatos, enquanto que as medicaes disponveis demoram duas semanas no mnimo", explica Jaime Hallak, professor de medicina da USP Ribeiro Preto e coordenador da pesquisa. Outra promessa farmacutica  a cetamina, usada como anestsico desde os anos 60. Os 120 pacientes do psiquiatra americano Carlos Zarate que tomaram a droga tiveram melhoras rpidas e significativas. Em vez de alterar os nveis de serotonina, dopamina e noradrenalina, a substncia regula a concentrao de outro neurotransmissor, o glutamato  isso, por si s, j  inovador: seria o primeiro antidepressivo, desde o Marsilid, a no interferir na taxa dos trs neurotransmissores de sempre. Alm disso, h novas tecnologias que apresentam outras duas possibilidades: estimulao magntica transcraniana, ondas eletromagnticas que estimulam partes do crebro  algo como o filho prodgio do eletrochoque  e o neurofeedback, em que o paciente faz atividades para treinar o crebro, e sensores mostram em tempo real os efeitos que restauram o equilbrio do rgo. 
     Mas no importam as tcnicas, terapias ou remdios que voc use, os perrengues da vida vo voltar. Triste? Lembre-se:  assim com todo mundo (e muito mas mais intenso com os depressivos). Tentar encarar as adversidades ainda  essencial para sair mais forte de cada crise. "Eu detestava estar deprimido, mas foi tambm na depresso que aprendi os limites do meu prprio terreno, a plena extenso da minha alma", escreveu Andrew Solomon. "A experincia da dor, que  especial em sua intensidade,  um dos sinais mais seguros da fora da vida". Conhecer seus prprios limites e no ultrapass-los torna a vida mais leve  voc passa a viver no seu tempo, sem forar a barra.  encontrar uma rotina que se encaixe em voc. E no o contrrio. 

Rankins da felicidade
ndice baseado em critrios como sade, segurana, educao e oportunidades.

OS MAIS FELIZES
1. Noruega
2. Dinamarca
3. Sucia
4. Austrlia
5. Nova Zelndia
6. Canad
7. Finlndia
8. Holanda
9. Sua
10. Irlanda

OS MAIS TRISTES
1. Repblica Centro-Africana
2. Congo
3. Afeganisto
4. Chade
5. Haiti
6. Burundi
7. Togo
8. Zimbbue
9. Imen
10. Etipia
No meio do caminho: Brasil, em 44 lugar entre 142 pases.

350 milhes de pessoas
MAIS DE 5% DA POPULAO MUNDIAL TEM DEPRESSO
Se existisse, a Repblica dos Depressivos seria o quarto pas mais populoso do mundo.

QUASE 10% (9,8%) DOS BRASILEIROS TM DEPRESSO. Mas s 4,2% sabem disso.
Temos mais depressivos que 
Rssia 8,2%; EUA 7,1%; Japo 4,5%
A maioria so mulheres, que respondem por 62% dos depressivos brasileiros.

SOFRIMENTO (QUASE) DOBRADO
Alguns sintomas incmodos so mais comuns entre os depressivos:
Insnias ou problemas para dormir: Depressivos 53%; No depressivos 30%
Ansiedade: Depressivos 59%; No depressivos 29%
Dores: Depressivos 37%; No depressivos 20%

44 anos  idade em que as pessoas esto mais propensas a ter depresso.

Sinais de depresso
Respondeu cinco vezes sim? Talvez seja hora de procurar ajuda.
NA MAIORIA DOS DIAS DAS DUAS LTIMAS SEMANAS, VOC...
1- Teve um humor deprimido na maior parte do dia?
2- Perdeu interesse ou prazer pela maioria das atividades cotidianas na maior parte do dia?
3- Perdeu muito peso ou emagreceu bastante (oscilao maior que 5%)? Teve aumento ou diminuio do apetite?
4- Teve insnia ou dormiu alm da conta?
5- Ficou mais agitado ou mais lento a ponto de as pessoas comentarem?
6- Sentiu fadiga ou perda de energia?
7- Teve sentimentos de baixa autoestima, inadequao ou culpa?
8- Sentiu que sua capacidade intelectual e concentrao diminuram?
9- Pensou sobre a morte ou teve ideias vagas de suicdio?

Deixa que eu resolvo
A CADA DEZ PESSOAS QUE SOFREM DE DEPRESSO, S TRS PROCURAM AJUDA
Desses, 75% decidiram se tratar aps a recomendao de um parente ou amigo.


Principais tipos DE ANTIDEPRESSIVOS
Tricclicos
O QUE FAZEM: aumentam os nveis de serotonina e noradrenalina.
EFEITOS COLATERAIS: sedao, boca e olhos secos, priso de ventre, ganho de peso, sonolncia.
EXEMPLOS: Tryptan (amitriptilina), Anafranil (clomipramina), Sinequan (doxepina).

Inibidores da monoamina oxidase
O QUE FAZEM: Anulam a monoamina oxidase, que destri a serotonina, dopamina e norepinefrina.
EFEITOS COLATERAIS: ganho de peso, inquietao, disfuno sexual e insnia.
EXEMPLOS: Marsilid (iproniazida), Nardil (fenelzina), Eldepryl (selegilina). 

Inibidores seletivos de receptao da serotonina
O QUE FAZEM: aumentam os nveis de serotonina.
EFEITOS COLATERAIS: nusea, insnia e disfuno sexual.
EXEMPLOS: Prozac (fluoxetina), Pondera (paroxetina), Zoloft (sertralina).

Atpicos
O QUE FAZEM: atuam, de maneiras diferentes, na serotonina, norepinefrina e dopamina.
EFEITOS COLATERAIS: cada um  um caso. Podem suscitar convulso, confuso, disritmia cardaca, nusea, ansiedade, disfuno sexual e alergia.
EXEMPLOS: Efexor (venlafaxina), Zetron (bupropiona), Cymbalta (duloxetina) e outros.

Os brasileiros compraram 42,3 MILHES DE CAIXAS DE ANTIDEPRESSIVOS e estabilizadores de humor em 2012.
Um mercado que cresceu 16,3% desde 2011 e movimentou R$ 1,85 BILHO.
OS ESTADOS MAIS DEPRIMIDOS
A regio Sul  a maior consumidora per capita de antidepressivos do pas.
Em mdia 4,08 caixas de fluoxetina vendidas para cada 100 habitantes.
RS 4,54
SC 4,3
PR 3,4

 com voc
50% DO IMPACTO DO ANTIDEPRESSIVO NO CORPO  EFEITO PLACEBO
Os ndices de melhora de quem toma remdio de verdade so 25% maiores do que os de quem toma plula de acar.
ACREDITAR NO TRATAMENTO  UM IMPORTANTE PASSO PARA A CURA.

Esperana
OS SINTOMAS DA DEPRESSO SOMEM EM 70% DE QUEM TRATA A DOENA CORRETAMENTE
Um estudo feito com 439 adolescentes americanos mostrou que, aps 18 semanas de tratamento, o ndice de sucesso foi
85% terapia + medicao
69% s medicao
65% s terapia

PARA SABER MAIS
O Demnio do Meio-Dia
Andrew Solomon, Objetiva, 2010.

O Tempo e o Co
Maria Rita Kehl, Editorial Boitempo, 2009.

The Emperor's New Drugs
Irving Kirsch, Basic Books, 2010.

Fontes: Escola de Medicina de Harvard (EUA). Institudo Nacional de Sado Mental (EUA).
Tratamento: Otvio Silveira 
Produo: Cintia Sanchez 
Modelo: Wanessa Morgado/Casa Agencia 
Make: Julliana Fraga
Agradecimentos: Hering, Caju Brasil, Asics, Body For Sure.


3. SADE  PAGANDO OS PECADOS
Exagerou na cerveja no fim de semana, mas quer perder a barriga no futebol de segunda-feira? Bem, voc vai precisar de mais do que isso. Confira abaixo quanto tempo de exerccio fsico  necessrio para eliminar as calorias ganhas em alguns pratos de comida.
INFOGRFICO / Carol Castro, Felipe Floresti, Karin Hueck, Cristine Kist, Ricardo Davino e Leonardo Soares

GULA, PECADO CAPITAL
Todo excesso ser castigado. Se voc resolver comer algum desses famosos quitutes cariocas, ter de suar a camisa depois.

1- FEIJOADA COMPLETA
2 copos de caipirinha; 225 g de feijoada, 2 colheres de couve refogada com bacon e 2 colheres de arroz branco; 2 cervejas 600 ml = 1.416 kcal
2- PARA A FOME DA MADRUGADA
250 ml de suco de laranja; sanduche de pernil; 100 g de fritas = 1.013 kcal
3- UMA TARDE  BEIRA-MAR
60 g de queijo coalho; picol de chocolate; 300 ml de mate com acar; 200 g de aa com granola e banana = 980 kcal
4- UM DIA NA PRAIA
2 latas de cerveja 350 ml; 30 g biscoito de polvilho; 100 g de camaro frito = 668 kcal

O PAGAMENTO
Escolha o seu esporte para se livrar logo dos quilos a mais e arrasar na praia.
CICLISMO: 28 kcal/km (a 15 km/h) Andar de bike pode ser timo para apreciar a vista, mas exige os maiores trajetos de todos. Para queimar uma feijoada, so mais de 6 voltas entre o Leblon e o Leme.
MARCHA ATLTICA: 60 kcal/km (a 11 km/h)
CORRIDA: 85 kcal/km (a 9,5 km/h)
O gasto calrico da corrida e da marcha atltica  parecido. Escolha o seu favorito
NATAO: 200 kcal/km (a 2,5 km/h)
Eis o campeo de gasto calrico: para queimar calorias percorrendo menos distncia, opte pela natao. Do Leblon ao Arpoador, e o estrago de um dia na praia estar controlado.

COMIDA  ENERGIA
Alguns alimentos so to energticos que poderiam abastecer nossas casas e carros.
1 copo de cerveja = lmpada acesa/1h
6x sanduche de pernil = chuveiro ligado/1h
300 gramas batata frita (850 kcal) = faz um carro andar/1,3 km (do Leblon a Ipanema)

Todos os clculos foram feitos para pessoas com 70 kg  quanto menor o peso, maior o tempo necessrio para queimar calorias.
Fontes: Tatiana Damasceno, nutricionista; Alyne Alves Figueiredo, nutricionista e membro da cmara tcnica do Conselho Regional de Nutrio; Paulo Hamdan, especialista em medicina do exerccio e esporte e professor da Universidade Veiga de Almeida; Paulo Zogaib, fisiologista e professor da Unifesp; Leonardo Menezes, professor de engenharia eltrica da Universidade de Braslia.


4. ATUALIDADES  TERRA SAGRADA
Saiba o que a terra realmente significa para os ndios brasileiros  e veja porque tem tenta gente interessada nela.
REPORTAGEM / Felipe Milanez
DESIGN/ Paula Bustamante
EDIO / Bruno Garattoni

     O funeral dos ndios boror  um dos rituais mais complexos do mundo. Leva meses e envolve toda a aldeia, com pinturas, msicas, danas e rezas. Eu tive a oportunidade de acompanhar um, na Terra Indgena Teresa Cristina, em Mato Grosso. Os boror acreditam que, aps a morte, a alma da pessoa passa a habitar o corpo de um animal, e o funeral deve gui-la nessa transio. Notei que os ndios sempre se deslocavam seguindo linhas imaginrias, que eu no enxergava, mas que para eles tinham um significado profundo  a aldeia  dividida em cls, e cada um faz determinados caminhos para atravessar o ptio central. Mrio, um jovem boror, foi meu guia durante o funeral. Graas a ele descobri que cada elemento da aldeia, aquelas coisas que pareciam apenas casas, um banhado, rvores, tambm tinha um significado oculto  porque desempenhava um papel especfico no processo. Mrio resumiu de forma simples: "Nossa aldeia  sagrada". Quando um ndio diz que a prpria terra  'sagrada', no  fora de expresso. Muitos povos indgenas acreditam em deuses e seres mitolgicos ligados a elementos da natureza, e o territrio  o espao fsico onde essas divindades se manifestam. Ou seja: a terra no  apenas o lugar onde os ndios moram.  um elemento central da religio e da identidade cultural deles. " o lugar onde descansam os espritos de nossos ancestrais", diz o yawanawa Joaquim Tashka, que vive no interior do Acre. 
     "Todos os ndios querem voltar no tekoh (local sagrado) onde nasceu. Os antepassados querem que a gente v pra l, andar em cima da nossa aldeia", explica o cacique guarani Elpidio Pires. "Os guarani tm a concepo de que so a primeira semente plantada na terra", afirma o antroplogo Rubem Almeida, que estuda esse povo h dcadas. E isso explica a relao deles com seu territrio. " como com as plantas. Se uma planta nasce em certo lugar,  dali. Os guarani entendem que pertencem a uma determinada terra  e no que a terra pertence a eles", diz. 
     Mas os territrios indgenas, que atualmente correspondem a 13% do Brasil, tambm so alvo de interesses polticos e econmicos. Em 16 de abril, trs dias antes do Dia do ndio, as redes de TV registraram uma cena impressionante: a invaso do Congresso Nacional por um grupo de 300 indgenas, que tomaram o plenrio e cercaram alguns deputados, em volta dos quais cantaram e danaram. Era um protesto contra a emenda constitucional (PEC) 215, projeto de lei que, se aprovado, dar ao Congresso o poder de demarcar  e reaver  terras indgenas. Os ndios temem que deputados ligados ao setor agropecurio (que formam a chamada "bancada ruralista") e empresas se mobilizem para reduzir suas terras. Aps a manifestao, o presidente da Cmara dos Deputados disse que a PEC 215 s voltar a ser discutida no prximo semestre. Ou seja: os ndios ganharam tempo. Mas no ganharam a batalha  mesmo porque, em maio, o governo mudou as regras. A Fundao Nacional do ndio (Funai), que era a responsvel por demarcar os territrios indgenas, agora ter de dividir esse poder com outros rgos do governo  entre eles a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuria). As 687 terras indgenas no pas, que abrigam aproximadamente 517 mil pessoas, despertam enorme interesse de agricultores, pecuaristas, mineradoras e empreiteiras, que vem nelas uma grande oportunidade de lucro e tm tentado explor-las  nem sempre de forma pacfica. 
     No final do ano passado, uma mobilizao online pedia que as pessoas mudassem de sobrenome nas redes sociais  trocando-o por "guarani kaiow", nome de dois povos indgenas que vivem no Mato Grosso do Sul. Eles tm as piores condies de vida do pas, com expectativa de vida de apenas 45 anos (contra 73 dos brasileiros em geral). Os guarani e os kaiow vivem to pouco porque, entre outros motivos, so assassinados  entre 2003 e 2010, 452 ndios foram mortos no Mato Grosso do Sul. Em novembro de 2011, o cacique Nsio Gomes foi morto por pistoleiros, e vrias lideranas indgenas esto ameaadas de morte  algumas precisam andar com proteo da Fora Nacional. Toda essa violncia tem um motivo simples: terra. 

EXPLORAO FORADA 
     A primeira terra indgena reconhecida legalmente no Brasil foi o Parque do Xingu, em 1961. Nos anos 1970 e 1980, houve uma grande mobilizao em torno da defesa dos ndios, que culminou nos direitos da Constituio de 1988. "ndio  terra, no d para separar", dizia um cartaz da poca. A partir da, grandes reas foram demarcadas, tentando respeitar os territrios tradicionalmente ocupados pelos ndios. A maior de todas  a yanomami, com mais de 9 milhes de hectares, situada entre Roraima e o Amazonas, demarcada em 1992 depois que um genocdio perpetrado por garimpeiros mobilizou a sociedade. 
     Mas nem todo ndio ocupa seu territrio original. Muitos povos foram desalojados. A ocupao da terra  dinmica, com histrico de violncia e lutas desde o incio da conquista pelos europeus e das primeiras entradas dos bandeirantes no interior. Mais recentemente, essas lutas passaram a envolver os interesses de empresas de vrios setores. 
     As mineradoras, por exemplo. Hoje,  proibido fazer minerao em terras indgenas. Mas dois projetos de lei, em discusso no Congresso, querem legalizar a prtica. Hoje h empresas interessadas em minerar 152 terras indgenas, segundo levantamento feito pelo Instituto Scioambiental (ISA). Um dos projetos estipula que os ndios fiquem com pelo menos 2% do faturamento do empreendimento. Como as empresas de minerao tm um poder poltico e econmico maior que o dos indgenas, existe a possibilidade de que esse "pelo menos" no tenha qualquer efeito prtico  e os ndios acabem ficando com apenas 2% mesmo. No Canad, onde a minerao de terra indgena  prevista em lei, eles recebem at 50% do lucro. 
     Alguns povos, como os ndios cinta-larga em Rondnia, j convivem com a minerao. Eles encontraram diamante na sua terra, no incio da dcada passada, e passaram a estabelecer relaes com garimpeiros de forma ilegal. Isso lhes rendeu dinheiro mas tambm conflitos, que culminaram com a morte de 29 mineradores em 2004. E, se alguns povos indgenas possuem interesse em explorar economicamente a minerao, outros no querem nem ouvir falar no assunto.  o caso dos yanomami. Segundo o ISA, mais da metade da terra deles poderia ser destinada a minerao, principalmente de ouro, caso essa prtica seja liberada. Mas os yanomami so contra. Um dos projetos que est no Congresso prev que, caso os ndios no aceitem a minerao, ela poder ser imposta pelo Poder Executivo, que ouviria um conselho formado por rgos do governo, da sociedade civil e do Congresso. Se esse conselho decidisse a favor da minerao, os indgenas seriam forcados a aceit-la. 
     Com ou sem minerao, os territrios indgenas j esto sendo afetados por grandes projetos de infraestrutura. O rio Tapajs, um dos maiores formadores do Amazonas, possui muitas cachoeiras quando passa pela divisa do Par com o Mato Grosso. Uma delas  conhecida como Sete Quedas, e ficou conhecida por ser intransponvel para os barcos que tentavam cruz-la no perodo da economia da borracha na Amaznia, at 1913. O local servir de base para a construo de uma usina hidreltrica, j em curso, pelo governo. Para especialistas em energia, a obra  necessria. E para os ndios munduruku, que vivem na regio, um pesadelo. Um deles, o cacique Kubatiap, conta que teve um sonho relacionado  construo da usina: "Estvamos andando, um bocado de pessoas. Pintados. Com arco e flecha nas costas, na direo do poente. Num momento vem um avio, passando pertinho. E em uma estrada, para um carro, e eles comeam a atirar. Eu estava com a arma, o arco na mo, que virou uma espingarda 22. Gritei para todo mundo entrar no mato. Nos escondemos, e fomos para essa cachoeira sagrada. L  um lugar protegido."

13% do Brasil  formado por territrios indgenas
S no Mato Grosso, 452 ndios foram assassinados entre 2003 e 2010
152 terras indgenas contm metais valiosos  e interessam a empresas de minerao
2% do lucro, apenas,  o que os ndios receberiam pelas terras exploradas.
     
PARA SABER MAIS
Povos Indgenas No Brasil 2006-2010
socioambiental.org


5. ECONOMIA  ONDE O FINANCIAMENTO COLETIVO D CERTO NO BRASIL
Dois anos aps a criao dos primeiros servios de crowdfunding no pas, reunimos dados dos trs maiores sites brasileiros para chegar a uma resposta. Veja antes de tirar um projeto da gaveta. 
INFOGRFICO / Felipe van Deursen, Gabriel Gianordoli, Jorge Oliveira e Pedro Duarte

Site: CATARSE 971 projetos recebidos. 48% bem-sucedido 
Dinheiro aplicado R$ 6,2 mi. 
Dinheiro usado R$ 5,6 mi

Site: COMEAKI 24 projetos recebidos. 50% bem-sucedido 
Dinheiro aplicado R$ 186 mil. 
Dinheiro usado R$ 180 mil.

Site: BENFEITORIA 62 projetos recebidos. 70% bem-sucedido 
Dinheiro aplicado R$ 839 mil. 
Dinheiro usado R$ 783 mil.

O DINHEIRO NO USADO  DEVOLVIDO

CULTURA E ARTE
1- Games e jogos
Site: Catarse
Dinheiro aplicado: 228 mil
Percentual de sucesso: 25%
Dinheiro investido (em R$): 251 mil

2- Cinema e vdeo
Site: Catarse
Dinheiro aplicado: 1,07 milho
Percentual de sucesso: 44%
Dinheiro investido (em R$): 1,22 milho

3- Design
Site: Catarse
Dinheiro aplicado: 116 mil
Percentual de sucesso: 44%
Dinheiro investido (em R$): 118 mil

4- Msica
Site: Catarse
Dinheiro aplicado: 1,56 milho
Percentual de sucesso: 56%
Dinheiro investido (em R$): 1,69 milho

5- Literatura
Site: Catarse
Dinheiro aplicado: 112 mil
Percentual de sucesso: 32%
Dinheiro investido (em R$): 134 mil

6- Quadrinhos
Site: Catarse
Dinheiro aplicado: 397 mil
Percentual de sucesso: 64%
Dinheiro investido (em R$): 418 mil

7- Moda
Site: Catarse
Dinheiro aplicado: 8,5 mil
Percentual de sucesso: 40%
Dinheiro investido (em R$): 14 mil

8- Teatro
Site: Catarse
Dinheiro aplicado: 420 mil
Percentual de sucesso: 54%
Dinheiro investido (em R$): 457 mil

9- Arte
Site: Catarse
Dinheiro aplicado: 597 mil
Percentual de sucesso: 52%
Dinheiro investido (em R$): 620 mil

10- Fotografia
Site: Catarse
Dinheiro aplicado: 99 mil
Percentual de sucesso: 56%
Dinheiro investido (em R$): 115 mil

11- Dana
Site: Catarse
Dinheiro aplicado: 61 mil
Percentual de sucesso: 67%
Dinheiro investido (em R$): 77 mil

12- Cultura e arte
Site: ComeAki e Benfeitoria
Dinheiro aplicado: 478 mil
Percentual de sucesso: 71%
Dinheiro investido (em R$): 495 mil

SOCIO-AMBIENTAL
1- Comunidade
Site: Catarse e Benfeitoria
Dinheiro aplicado: 689 mil
Percentual de sucesso: 45%
Dinheiro investido (em R$): 831 mil

2- Arq. E urb.
Site: Catarse
Dinheiro aplicado: 49 mil
Percentual de sucesso: 33%
Dinheiro investido (em R$): 51 mil

3- Sustentabilidade
Site: ComeAki e Benfeitoria
Dinheiro aplicado: 57 mil
Percentual de sucesso: 42%
Dinheiro investido (em R$): 61 mil

4- Social
Site: ComeAki 
Dinheiro aplicado: 14 mil
Percentual de sucesso: 6,6%
Dinheiro investido (em R$): 15 mil

5- Educao
Site: Benfeitoria
Dinheiro aplicado: 91 mil
Percentual de sucesso: 73%
Dinheiro investido (em R$): 99 mil

ESPORTE, SADE E BEM-ESTAR
1- Esporte
Site: Catarse e ComeAki 
Dinheiro aplicado: 256 mil
Percentual de sucesso: 58%
Dinheiro investido (em R$): 267 mil

2- Sade e bem-estar
Site: Benfeitoria
Dinheiro aplicado: 129 mil
Percentual de sucesso: 50%
Dinheiro investido (em R$): 130 mil

EMPREENDEDORISMO
1- Eventos
Site: Catarse e ComeAki 
Dinheiro aplicado: 369 mil
Percentual de sucesso: 47%
Dinheiro investido (em R$): 385 mil

2- Pessoal
Site: ComeAki
Dinheiro aplicado: 4,3 mil
Percentual de sucesso: 33%
Dinheiro investido (em R$): 5 mil

3- Jornalismo
Site: ComeAki 
Dinheiro aplicado: 1 mil
Percentual de sucesso: 33%
Dinheiro investido (em R$): 1,1 mil

4- Empreendedorismo
Site: ComeAki 
Dinheiro aplicado: 9,6 mil
Percentual de sucesso: 66%
Dinheiro investido (em R$): 9,6 mil

PROJETOS FAMOSOS
A maioria  de cultura e arte. E os mais conhecidos tambm.

DOMNIO PBLICO
Catarse
2.042 apoiadores
R$ 106.221
Cinema e Vdeo
Documentrio que prope investigar os investimentos pblicos at a Copa de 2014, analisando os benefcios para a populao e as reas de desapropriao no Rio de Janeiro. Tem previso de lanamento para o incio de 2014.

COMBO RANGERS
Catarse
731 apoiadores
R$ 67.940
Quadrinhos
Projeto do escritor Fbio Yabu que props trazer de volta Combo Rangers, sucesso dos quadrinhos nacionais na virada do sculo. "Eu tentei levantar R$ 40 mil em dois meses, mas esse valor foi superado em duas semanas. Em vez de um lbum, vou financiar dois", conta.

FESTIVAL BAIXOCENTRO 2013
Catarse
1.920 apoiadores
R$ 72.750
Arte
Com o mote "as ruas so para danar", o projeto foi proposto pelo Movimento BaixoCentro e teve a inteno de ocupar a regio central de So Paulo, degradada e desvalorizada nas ltimas dcadas. Foram 530 atividades em dez dias, transformando a rotina dos paulistanos que passam ou vivem em torno do Minhoco.

PIMP MY CARROA
Catarse
792 apoiadores
R$ 63.950
Arte
O grafiteiro Mundano se inspirou nos programas de tunning de carros na televiso para aplicar o conceito em carroas de lixo reciclvel de So Paulo. A ideia era melhorar o cotidiano dos carroceiros ao consertar e enfeitar seus veculos. O projeto fez sucesso na internet e originou uma "carroceata".

O RENASCIMENTO DO PARTO
Benfeitoria
1.191 apoiadores
R$ 129.621
Cultura e Arte
A proposta de rica de Paula Cavalcante e Eduardo Chauvet era fazer um filme sobre o parto natural no Brasil, pas com uma das maiores taxas de cesariana do  mundo. O longa vai circular, inicialmente, por oito capitais, a partir de agosto.

FLUMINENSE, 110 JOGOS INESQUECVEIS
ComeAki
1.576 apoiadores
R$ 206.378
Esporte
O livro em comemorao ao centenrio do time, lanado em 2012, foi o projeto bem-sucedido com a maior arrecadao no Brasil: R$ 206 mil. A ideia partiu do prprio Fluminense.

OU D CERTO OU NO D
Por que a taxa de sucesso no  to alta?
Os sites no tm respostas conclusivas, mas apontam caractersticas em comum. Todo projeto bem-sucedido  relevante e bem divulgado. "O maior erro  achar que  fcil arrecadar dinheiro", diz Dorly Neto, do Benfeitoria. "Isso requer planejamento e empenho". E, se a maioria dos trabalhos sempre foi de cultura e arte, hoje o cenrio  mais diverso. "Projetos cientficos e tecnolgicos tm chegado mais", diz Rodrigo Maia, do Catarse. E at grandes nomes j recorreram ao meio. O Palmeiras tentou levantar pouco mais de R$ 21 milhes para trazer o jogador Wesley. Conseguiu s R$ 700 mil, mas mesmo assim  o maior valor arrecadado no pas.


6. ZOOM  A VIDA IMITA A ARTE ABSTRATA
O fotgrafo alemo Michael Wolf questiona a qualidade de vida nas grandes cidades a partir da esmagadora paisagem urbana de Hong Kong.
FOTO / Michael Wolf DESIGN / Ricardo Davino 
REPORTAGEM E EDIO / Cristine Kist

Vistas de longe, essas pginas poderiam tranquilamente ser confundidas com as telas cheias de formas geomtricas (ou de "riscos sem sentido", dependendo do seu gosto) que revolucionaram as artes visuais no incio do sculo 20. Era essa mesmo a inteno do fotgrafo Michael Wolf.  s olhando mais de perto que o observador se d conta de que as imagens so, na verdade, fotografias de edifcios gigantes. E  s olhando mais de perto ainda (com uma lupa, talvez) que d para perceber que existe vida dentro deles.

Michael Wolf nasceu na Alemanha, morou um bom tempo nos Estados Unidos e foi para Hong Kong trabalhar como fotojornalista assim que terminou os estudos. Depois de um tempo, pediu as contas e (como todo mundo que pede as contas) foi em busca de "novos desafios". E um dos novos desafios era justamente documentar a vida no lugar em que tinha escolhido viver. Foi com esse objetivo que ele fotografou os enormes prdios honcongueses (juramos que  assim mesmo que se escreve).

Hong Kong tem hoje cerca de 7 milhes de habitantes comprimidos em uma rea menor que a da cidade de So Paulo (que tem 11 milhes de habitantes, muito mais que Hong Kong, portanto). O caso  que o territrio da cidade-estado asitica tem 60% do seu terreno original preservado em parques. Sobram os outros 40% para comportar 100% da populao. E a o jeito  "empilhar" todo mundo em prdios que chegam a ter mais de cem andares e quase 500 metros de altura. At a igreja mais alta do mundo fica l: ela est no 75 andar de um arranha-cu.

Nessa srie, Wolf fez questo de cortar o cu e o horizonte das fotos. A ideia era justamente tirar os pontos de referncia para dar ao observador a desconfortvel sensao de que os edifcios no tem comeo nem fim. Foi o caminho que ele escolheu para questionar as condies de vida e o conceito de privacidade nos grandes aglomerados urbanos (quantas pessoas voc acha que cabem em 2 cm dessa pgina?

Se voc ficou curioso para saber como so esses prdios por dentro, saiba que Wolf tambm fotografou os apartamentos de um deles na srie 100 x 100 (porque cada apartamento tinha 100 ps quadrados, ou mais ou menos 9 m2). As imagens esto disponveis no site do fotgrafo. Anota a: photomichaelwolf.com. 

PARA SABER MAIS
Michael Wolf:  Architecture Of Density
Miohael Wolf, Peperoni Books, 2013


7. CINCIA  OS BASTIDORES DO IGNOBEL
Ele  famoso por premiar pesquisas esquisitas. Mas por trs da piada h muita competio, trabalho e uma festa que rene grandes cientistas do mundo todo.

     Na sorveteria Toscanini, a 1 km da Universidade Harvard e a 500 m do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), acontecem algumas das mais calorosas discusses da cidade de Cambridge. So pesquisadores, jornalistas e outros especialistas em cincia que defendem seus eleitos em um concurso inusitado e estranho, que atrai cientistas do mundo inteiro. A tenso chega ao ponto de Marc Abrahams, o cabea da turma, falar firme: "precisamos lembrar para que estamos reunidos". Ele devem, afinal, escolher os dez vencedores anuais, os autores das melhores pesquisas que "fazem rir e depois pensar". E, assim, garantir mais uma edio do Ig Nobel.  um prmio nico mesmo. S aqui existe a chance de uma pesquisa sobre o primeiro caso de necrofilia gay entre patos ser reconhecida. E isso  s o comeo.  
     O Ig Nobel surgiu quando Abrahams virou editor da revista Annals of Improbable Research ("anais das pesquisas improvveis"), publicao para estudos cientficos com uma pegada humorstica. Ele achou que as melhores pesquisas tratadas na revista tinham flego para concorrer em uma stira ao Nobel, o pomposo e centenrio prmio sueco que homenageia diversas reas. Em 1991, rolou o primeiro Ig Nobel, no Museu do MIT. Em 1994, ele se mudou para o Teatro Sanders, em Harvard, onde acontece at hoje. 
     Em 22 anos, a premiao segue disputada, com a presena frequente de ganhadores do verdadeiro Nobel. E os motivos no faltam. "Vou porque  engraado", resume Richard Roberts, Nobel de Medicina de 1993. Mas o Ig Nobel no  um mero besteirol acadmico. Ele virou uma espcie de grife excntrica, quem vence tem orgulho. E os organizadores so reconhecidos pelo trabalho. Afinal,  mo na massa o ano inteiro. So cem voluntrios para arrumar a cerimnia, que junta 1,2 mil pessoas. Para escolher os vencedores, Abrahams recebe todo ano indicaes que alimentam o banco de dados do prmio, que j tem cerca de 9 mil pesquisas catalogadas. Colaboradores voluntrios mandam suas indicaes por e-mail (interessou? O endereo  marca@improbable.com). Em seguida, Abrahams e 40 jurados chegam aos dez vencedores em cinco categorias fixas (Medicina, Literatura, Fsica, Qumica e Paz) e outras cinco que variam de ano para ano. Entre maro e maio, avisam os campees. Se eles toparem, devem manter silncio at a cerimnia, em setembro. Se no quiserem o prmio, a equipe o passa para outro. Quem costuma rejeitar so grandes empresas, governos e jovens cientistas que temem uma possvel repercusso negativa. Mas cerca de 80% deles dizem sim, movidos pela publicidade e prestgio. "Acredito que o Ig Nobel premia aqueles que pensam fora da caixa", diz o holands Bart Knols, que venceu em 2006 na categoria Biologia. O russo Igor Petrov, Ig Nobel da Paz em 2012, completa: " engraado e ajuda na carreira".   
     Tanto ajuda que um vencedor do Ig Nobel j ganhou o Nobel. O fsico russo Andr Geim fez um sapo levitar em um campo magntico e faturou o Ig Nobel de Fsica em 2000. Em 2010, recebeu o Nobel na mesma categoria por ser um dos descobridores do grafeno, o material mais fino e resistente do planeta. Roy Glauber, professor de fsica em Harvard, nunca ganhou o Ig Nobel, mas participou ativamente limpando por dez anos os tradicionais avies de papel que so lanados no palco. Em 2005, ele ganhou o Nobel, tambm de Fsica, por sua contribuio para a teoria quntica da coerncia ptica. Glauber lembra: "Foi o nico ano que no pude ir ao Ig Nobel". Dois dias antes do prmio em Harvard, ele soube que ganhara o Nobel e viajou para a Sucia. 
     Para dividir espao com laureados do Nobel e ficar nos holofotes, os vencedores topam pagar do prprio bolso a viagem para estar na cerimnia. E tudo bem se voc for um dos campees e no tiver grana para a hospedagem  os organizadores oferecem o sof da sala de casa. Essa hospitalidade  fruto da pouca verba. Eles no divulgam quanto, mas certamente haveria mais dinheiro se no fizessem questo de entregar o prmio no Sanders, auditrio mais chique da universidade mais prestigiada do mundo. A ideia  essa mesmo. Fazer com que o Ig Nobel seja visto como um ponto alto na carreira de qualquer cientista. E h outro objetivo, bem menos exigente. O sofisticado palco serve tambm para restringir a baguna. Qualquer sujeira a mais pode significar o veto ao teatro no ano seguinte. Como o Ig Nobel precisa e quer ter muito prestgio, deixar Harvard poderia indicar decadncia. "A cerimnia parece o caos, mas os organizadores so cuidadosos", diz Robert Kirshner, professor de astronomia de Harvard e participante do prmio. Quem cuida dos bons modos  o advogado William J. Maloney. Durante a cerimnia, ele usa uma corneta para avisar o pblico que haver uma demonstrao mais pesada. E, se achar algo polmico demais, ele tem o poder de vetar antes da festa comear. Em 2008, uma pesquisa que comprova que danarinas erticas ganham mais gorjeta quando ovulam levou o prmio de Economia. Os vencedores Geoffrey Miller e Brent Jordan queriam mostrar na prtica. Maloney vetou. E tambm disse no ao vencedor de Medicina de 2006, Francis M. Fesmire, que quis ensinar como sua massagem retal  eficaz contra soluos. O prmio perde piadas, mas garante a sua sobrevivncia. 
     Mas isso no quer dizer que no h baguna. Longe disso. As delegaes de universitrios que acompanham a festa fazem questo de gritar e levar cartazes. Cada membro  obrigado a dar trs voltas ao redor de si mesmo no sentido horrio. A graa  a dificuldade de rodopiar, j que as cadeiras do teatro so muito apertadas. A tradio, por mais bizarra que seja,  algo srio aqui. To sria quanto a pesquisa de Jos Marcelino se mostrou para a arqueologia. Ou o trabalho de Brian Wansink, que aps ganhar o Ig Nobel chefiou um rgo do governo americano. 
     Para garantir agilidade na premiao, duas meninas no permitem longos discursos. Quando sentem que o vencedor passou dos limites, elas falam: "Pare, por favor, estou entediada!". Quem entrega os prmios sempre so vencedores do Nobel. Alguns so convidados a explicar em 24 segundos suas especializaes. E depois resumem o que falaram em sete palavras. Vencedores do Nobel resumindo suas gloriosas carreiras em menos palavras que esta frase. 
     Dois dias depois, os vencedores do aulas abertas no MIT sobre suas pesquisas.  noite, h uma festa em que, segundo os participantes ouvidos pela SUPER, h muita conversa e pouca ao. "As festas no so muito boas. Na prxima vez, vou bancar uma melhor" , diz Igor Petrov. Mas houve grandes momentos. Dan Meyer ganhou em Medicina em 2007 por estudar os efeitos no corpo causados pela prtica milenar de engolir espadas. Na festa do ano seguinte, ele fez uma demonstrao. Um vizinho reclamou de barulho e, quando a polcia chegou, no entendeu por que Meyer tinha uma espada na boca, cercado de cientistas rindo e bebendo. O caso ficou notrio e, hoje em dia, na premiao, ele engole uma espada de 76 cm. Outra tradio estava criada. E Abrahams sentiu que cumpriu a mais trivial de suas misses. Reunir pessoas talentosas e criativas para, antes de tudo, se divertir. 

CAMPEES DA CINCIA MALUCA
Alguns feitos que levaram o Ig Nobel.

IGOR PETROV
Paz (2012) Encontrou uma forma de transformar munies de armas de fogo em nanodiamantes, que so testados por cientistas americanos para o tratamento de tumores. A guerra contra o cncer ganha um significado mais literal.

BART KNOLS
Biologia (2006) Mostrou que o queijo limburger ajuda na preveno contra malria. O mosquito transmissor da doena  atrado pelo cheiro do p, que  parecido com o do queijo. Hoje, armadilhas usam amostras sintticas do queijo para atrair e prender o mosquito em casas no Qunia e na Tanznia.

JOS MARCELINO & ASTOLFO ARAJO
Arqueologia (2008) Brasileiros, mostraram como tatus deslocam peas arqueolgicas e misturam sedimentos de diferentes pocas, fazendo um grande estrago para a cincia. "Parece bobagem, mas  fundamental", diz Marcelino.

BRIAN WANSINK
Nutrio (2006) Usou uma tigela de fundo falso com sopa de tomate para mostrar como comemos mais por desejo que por necessidade. As pessoas testadas no percebiam que a sopa era reposta e nunca chegava ao fim. Assim, comiam sem parar. Pelo seu trabalho, Wansink foi indicado pela Casa Branca para assumir um rgo pblico que promove a alimentao saudvel nos Estados Unidos.


8. SADE  RAIVA
Uma doena fatal em 100% dos casos, que leva  morte agonizante. Antes da vacina, a raiva era o maios assustador dos males  e pode ter dado origem a contos de vampiros, lobisomens e outros seres aterrorizantes.
REPORTAGEM / Marcos Ricardo dos Santos
EDIO / Karin Hueck

     Certo dia o sujeito acorda se sentindo estranho. Tem um pouco de febre, uma dor de cabea, talvez uma falta de apetite. Pode ser qualquer coisa. Passados uns dias, uma sbita ansiedade toma o doente. Dores pelo corpo e convulses. A febre aumenta, e ele se torna agressivo.  quando aparece o sintoma inconfundvel: um pavor incompreensvel de gua.  a hidrofobia. No pode nem ficar perto de um copo d'gua que o terror o domina. A essa altura, a garganta sofre espasmos e a pessoa emite gritos que mais parecem ganidos e uivos. No h mais dvidas,  a raiva. Quando os sintomas chegam a esse ponto, nada mais pode ser feito: em poucos dias, a morte  dolorosa, agonizante   certa, em quase 100% dos casos. 
     Se a descrio acima parece histria de terror,  porque ela realmente . A raiva tem sintomas to assustadores porque mata de forma diferente da maioria das doenas neurolgicas, que costumam destruir os neurnios. O lyssavirus (que vem do grego lykos: lobo) atinge os neurotransmissores, a comunicao do sistema nervoso. Depois da contaminao, caminha cerca de 1 cm por dia da ferida em direo ao crebro e l, por meio de um mecanismo chamado excitotoxicidade, faz com que as clulas nervosas gastem toda a sua energia e morram de exausto. Aos poucos, as funes automticas param de funcionar, e a morte acontece por parada cardaca ou respiratria. Histria de terror das piores. 
     Por muitos sculos, a raiva foi a nica doena visivelmente transmitida por animais  sempre mamferos (principalmente cachorros e morcegos) e sempre por mordidas. "O vrus da raiva evoluiu para viver no cachorro, e o cachorro evoluiu para coexistir com o homem. Isso fez com que a doena se espalhasse", escrevem Bill Wasik e Monica Murphy em Rabid: A Cultural History of the World's Most Diabolical Vrus ("Raiva: uma histria cultural do vrus mais diablico do mundo"). Hoje, a raiva est controlada: so 55 mil casos em humanos ao ano, de acordo com a OMS, quase todos na sia e frica. Mesmo no Brasil, a doena  rarssima; no ano passado, foram apenas cinco casos. Tudo graas  vacina. "Hoje o principal risco  o contato com animais silvestres, que aumentou por causa do ecoturismo", diz Jarbas Barbosa, secretrio nacional de Vigilncia em Sade.
     Os mistrios sobrenaturais que envolviam a doena s foram dissipados quando uma celebridade do mundo cientfico voltou suas atenes para ela: Louis Pasteur. Ele pesquisou a raiva justamente porque se tratava da "mais assustadora e mortal das doenas". Sua vacina consistia em 21 dolorosas injees na barriga, que continham cada vez uma verso mais enfraquecida do lyssavirus. O mtodo de Pasteur foi aperfeioado e  usado at hoje: atualmente bastam quatro vacinas no brao. Foi essa simples soluo que praticamente eliminou a doena. 
     Por isso, quando o pediatra Rodney Willoughby recebeu uma ligao em seu consultrio em Milwaukee, nos EUA, informando-o de que iria receber uma paciente com os sintomas de raiva, ele no acreditou. Afinal, apesar de seus mais de 20 anos de experincia, s conhecia casos da doena pelos livros. Mas os exames realizados na paciente, uma adolescente de 15 anos chamada Jeanna Giese, confirmaram: era mesmo raiva. 
     Quatro semanas antes, Jeanna estava na igreja de sua comunidade, quando um morcego invadiu a capela e a mordeu. Ela sequer sentiu. Quando os sintomas apareceram, j era tarde. A vacina  eficiente em quase todos os casos, mas apenas se tomada nos primeiros dias aps a infeco. Se o vrus da raiva atingir o crebro antes, o ndice de fatalidade  praticamente 100%. O dr. Willoughby sabia que o procedimento normal nesses casos era sedar o paciente e esperar a morte. Mas ele no se conformou a isso. 
     O mdico tambm sabia que o corpo reage naturalmente ao vrus da raiva. O problema  que ele engana o nosso sistema imunolgico. A maioria das doenas avana pela corrente sangunea:  o caminho mais rpido, e tambm mais protegido pelo sistema imunolgico. Mas o lyssavirus se espalha pelos neurotransmissores e, assim, chega ao crebro antes das nossas defesas naturais. Foi ento que o dr. Willoughby teve uma ideia. Vencer o vrus da raiva pela pacincia: era preciso dar ao organismo tempo para ele organizar suas defesas. O plano nunca havia sido testado, mas a ideia consistia em induzir a menina ao coma, baixando as funes corporais e cerebrais ao mnimo possvel. Assim, seu corpo poderia se preocupar com uma s coisa: gerar defesas. A equipe usou quetamina, um poderoso anestsico e alucingeno, com a retrovirais e sedativos barbitricos. 
     Para surpresa de todos, a estratgia deu certo. Quando saiu do hospital, no dia 1 de janeiro de 2005, Jeanna estava completamente curada. A notcia do primeiro registro de cura da raiva se espalhou pelo mundo. A equipe responsvel elaborou um roteiro de atendimento que foi batizado de protocolo de Milwaukee. Desde ento, cinco pessoas no mundo j foram curadas com procedimentos semelhantes  uma delas no Brasil. O caso brasileiro aconteceu em 2008, quando o adolescente Marciano Menezes da Silva foi diagnosticado depois de ser mordido por um morcego na cidade de Floresta, no serto de Pernambuco. O rapaz foi levado ao Recife e os mdicos notaram os sintomas j desenvolvidos. "Tnhamos contato com o dr. Rodney, que fala portugus e  casado com uma pernambucana, e decidimos aplicar o protocolo de Milwaukee. Era a nossa melhor chance", explica o mdico Vicente Vaz, infectologista que integrou a equipe que cuidou de Marciano. De fato, foi. O rapaz sobreviveu e se tornou o terceiro caso documentado de cura. 

SOBRE VAMPIROS, ZUMBIS E LOBISOMENS 
     Um ser violento, que vive na escurido. Ao menor sinal de perigo, ele se torna agressivo: mostra os caninos pontiagudos e espuma pela boca.  hipersexualizado, como um animal no cio. Ataca quem estiver por perto  e quem tiver o azar de ser mordido em pouco tempo tambm se tornar um deles.  um vampiro?  um lobisomem?  um ser humano com raiva? Difcil separar as histrias. Tanto que, em 1998, o mdico espanhol Juan Gmez Alonso chamou a ateno da comunidade cientfica ao publicar Raiva: uma possvel explicao para a lenda dos vampiros. Ele defende que os vampiros  um dos mitos mais marcantes da cultura pop h 200 anos  so, na verdade, criaes literrias baseadas em pessoas infectadas com raiva. 
     A relao mais bvia  o fato de que tanto a raiva quanto o vampirismo passam de organismo a organismo por uma mordida. Mas o mdico espanhol tambm cita outras caractersticas similares: o intenso desejo sexual dos vampiros e das pessoas infectadas (h relatos de contaminados que ejaculam at 30 vezes ao dia) e a violncia. 
     Alm dos vampiros, o cientista espanhol defende que os lobisomens tambm surgiram da doena. As mordidas, os dentes  mostra e a transformao animalesca seriam os indcios. Bill Wasik e Monica Murphy explicam: "Observe os filmes de terror. Os viles surgem ofegantes, quase sempre mordendo suas vtimas. Quase sempre h uma forma de contgio  algo maligno que passa de vtima a vtima, por meio de uma mordida, beijo ou lambida". Para eles, nada alm de roteiros inspirados na raiva. E h indcios de que a nova febre dos zumbis tambm seja fruto do mal. No filme Extermnio, de 2002, a humanidade  atacada por uma doena de nome "fria". O diretor, Daniel Boyle, admitiu ter se inspirado na raiva para criar sua verso de zumbis, muito mais geis e furiosos do que os clssicos e molengas zumbis dos anos 60, 70 e 80. 
     Para Wasik e Murphy, esses personagens no so apenas uma metfora da raiva, mas um reflexo da profunda influncia que a doena estabeleceu no imaginrio das pessoas. Por mais que esteja controlada, tudo indica que a relao da humanidade com um de seus mais antigos medos ainda est longe do fim. 

A MORTE  A raiva mata pela exausto. Excita tanto o crebro que ele fica sem energia para as funes vitais.
OS URROS  garganta e cordas vocais sofrem espasmos e o contaminado solta ganidos.
A BABA  Assim como os cachorros, humanos com raiva tambm espumam pela boca. Efeito da hidrofobia, que se manifesta como um medo paralisante de engolir qualquer lquido.
A AGRESSO  Convulses so comuns. H relatos de doentes que atacaram outras pessoas.
A LIBIDO  Com o crebro estimulado,  comum sentir excitao constante. 
O CAMINHO  Quando entra no organismo de uma pessoa, o vrus se desloca por meio do sistema nervoso, avanando entre um e dois centmetros por dia, navegando pelas linhas de transmisso de impulsos nervosos. 
O CONTGIO  Quarenta dias podem se passar da contaminao aos primeiros sintomas: sinal de que  tarde demais.

PARA SABER MAIS
Rabid
Bill Wasik e Monica Murphy, Viking Adult, 2012.


9. AVENTURA  UMA FAZENDA NO FIM DO MUNDO
De invernos brutais  presso por mais tecnologia, acompanhamos o dia a dia de um campons que luta para manter sua pequena produo de alimentos orgnicos em uma ilha remota no Crculo Polar rtico.
REPORTAGEM / Lvia Aguiar, de Hestmona
EDIO / Felipe van Deursen

     Mesmo no vero, o cu estava cinza. E era o auge da estao. Com uma geleira a oeste e uma montanha a leste, eu era a ltima passageira do barco, a nica a desembarcar no ponto final: a ilha de Hestmona, um pedao de terra cortado pelo Crculo Polar rtico, no norte da Noruega.  minha espera, um homem baixo, encurvado, com uma indefectvel barba branca, farta e sem bigode, boina, galochas, macaco surrado e uma bicicleta. Kurt Randeker, 64 anos, parecia o Mestre, dos Sete Anes. Sobrava simpatia, faltavam dentes. Alemo radicado na Noruega, o campons  um ex-socialista, ex-sindicalista e um grande professor em assuntos de cultivo de alimentos orgnicos ("a nica forma de agricultura possvel", dizia). Eis minha principal companhia por dez dias. 
     Kurt e sua mulher, Marie Louise, fazem parte de um movimento de volta  terra, que prega o uso do campo por pequenos fazendeiros com agricultura de subsistncia. Mas nem sempre eles foram assim. No final da dcada de 1960, largaram o movimento sindicalista, o emprego na Mercedes-Benz e a casa em Stuttgart, no sudoeste da Alemanha, para se instalar em uma chcara que produzia queijo pecorino na cordilheira do Jura. No tinham mais do que dez ovelhas. Em 1999, pressionados por grandes fazendeiros na regio, venderam a terrinha e se mudaram para essa ilha remota no mar da Noruega, na esperana de trabalhar com a terra do jeito deles. At morrer. 
     E assim eles seguem, aqui na Hestmonvagen, a pequena fazenda onde vivem. E para onde Kurt me trouxe para viver e trabalhar de graa. O lugar  do tamanho de uns dois campos de futebol, no tem televiso nem internet. Mas tem energia eltrica, que alimenta aquecedores, rdio, chaleira, chuveiro e a mquina de fazer manteiga. No h geladeira. Nesse canto do mundo, um quarto frio do lado de fora  o suficiente para conservar queijo, leite e sobras do jantar. Mesmo no vero. 
     Tudo bem ficar sem luxos tecnolgicos, eu j sabia o que me esperava. Cheguei ali por meio da organizao Wwoof ("oportunidades de trabalho em fazendas orgnicas ao redor do mundo", na sigla em ingls).  uma rede presente em 99 pases (inclusive o Brasil) que conecta fazendas orgnicas e pessoas que querem trabalhar nelas. Soa nobre, mas Kurt no gosta do rtulo. "No fao isso pelo planeta. Estou muito velho para ligar para o planeta." 
     Alm de um ou outro trabalhador voluntrio ("geralmente mulheres intelectualizadas da cidade", diz Kurt, me fazendo vestir a carapua), quem trabalha ali  o prprio casal, que conta com uma gua e um trator da dcada de 1950. A Hestmonvagen tem tambm duas vacas leiteiras. O que no  consumido na produo diria vira manteiga e ricota. A alimentao do casal segue a premissa da fazenda, ou seja, consumo responsvel, agricultura sustentvel e pouco desperdcio. Tudo  pensado para otimizar a produo sem a necessidade de aditivos qumicos, fertilizantes etc. As frutas colhidas no vero viram geleia para o resto do ano. J as batatas, por exemplo, so armazenadas junto com as mas, que tm hormnios que ajudam na conservao mtua. Tudo muito simples. Mas Hestmona no  toda assim. Da janela de casa, Kurt v a fazenda do vizinho, o maior proprietrio da ilha e seu antagonista declarado. "Coitadas das vacas, presas o dia inteiro", lamenta. Em grandes fazendas, normalmente h um padro industrial a se cumprir, com metas e presso por produtividade. Na propriedade vizinha, o gado fica confinado por nove meses. Mquinas ordenham as vacas, e o leite j sai da fazenda pasteurizado para ser envasado e vendido. Em Hestmonvagen, as vacas ficam no curral s em dias de tempestade. Quem tira o leite  o prprio casal, na mo. E os voluntrios. Bem, quando acordam na hora certa... 
 com Vergonha que admito que nunca consegui acordar para a ordenha das vacas, s 5h. Mas no fiquei  toa. Fiz queijo e manteiga e, especialmente, cuidei do pasto: cortei, empilhei e sequei capim para servir de comida aos animais no inverno. O clima mido da Noruega impede que o feno seque sozinho, mas um varal de ao resolve o problema. Basta pendurar o capim cortado, que seca entre uma e duas semanas e a ento fica pronto para ser armazenado. Em anos de dificuldade extrema e muita chuva, Kurt engole o orgulho e compra algumas das bolas de feno embaladas em plstico do vizinho, que, amparado pela tecnologia, no fica to sujeito s intempries do clima. Adaptar-se  natureza e tentar tirar vantagem disso  o que guia fazendeiros como Kurt. Por mais que s vezes ele precise dos "antagonistas". 
     Trabalhar com a terra na Noruega  bem diferente do que no nosso tropical pas. Em Hestmona, o termmetro no vero fica entre 10 C e 25 C. No inverno, pode cair para uns -15 C. Com tanto frio, aqui no cresce trigo, soja, milho, mandioca. Nem chuchu, que d na serra e em qualquer cerca brasileira, d as caras por aqui. Mesmo assim, Kurt nem pensa em mudar de vida. "Gosto de ficar longe dos problemas do capitalismo." 
     O casal planta cenoura, rcula, rabanete e outros vegetais, que vende a compradores de outras ilhas da regio. O resto da produo segue o sistema de rotao de terra. Isso significa que o terreno  dividido em lotes que revezam ciclos de aveia, batata e capim com trevo. A rotao  feita para que o solo se recomponha dos nutrientes absorvidos por cada uma das espcies plantadas e, assim, esteja sempre frtil. Isso, por sua vez, fortalece as plantaes, que dispensam agrotxicos e aditivos qumicos. A rotao caiu em desuso nas ltimas dcadas, com a mecanizao e industrializao do campo. D mais trabalho e geralmente o retorno financeiro  mais instvel. Kurt no d a mnima. Ele tem problemas mais triviais. Mas coube a mim limpar a merda com ele. Literalmente. 
     Uma imensa poa de lama, entre o curral e o pasto,  problema recorrente da fazenda. As vacas passam por ali, se sujam e acabam se machucando. Isso porque muitas vezes sobram gros de areia nas tetas, que ficam raladas com o esfrega-esfrega dirio da ordenha. Por mais que Kurt as limpe com uma pomada especial, o jeito  secar a poa. A lama tem muita bosta de vaca. Muita! Vesti botas e luvas, deixei o nojinho no quarto e pus a mo na massa com um mantra na cabea: "Se voc ama o leite, tem de amar a bosta". Afinal, ela tambm faz parte do ciclo da fazenda. Tirei o coco da poa e o coloquei em montinhos de algas marinhas e outros restos orgnicos. Toda a gororoba viraria compostagem, que seria usada como um fertilizante natural (e essencial) na horta. 
     Felizmente, exerci funes mais aprazveis, como guiar a gua Brownie. Tive de seguir um ritual matinal de amizade que imita a troca de afeto equina. Funciona assim: primeiro voc faz carinho na base do pescoo, onde acaba a crina. Depois, abraa sua cabea e assopra as narinas. Diversas vezes. Brownie adora isso e, se ela decide ser sua amiga, funga de volta. Nojento? Talvez, se o focinho dela no fosse a coisa mais macia do mundo. D vontade de fazer carinho para sempre. Mas tnhamos de arar o campo de batatas. Ento, de volta ao trabalho. 
     Ns, da cidade, nos afastamos tanto da natureza que esquecemos de onde vm o leite, o macarro, a carne que  vendida cortada e temperada. Nosso dia a dia tem qumicos que turbinam vegetais, alteram o crescimento de animais e conservam a comida por mais tempo. E nos acostumamos a isso. Mas tudo comea ali, com um p na gua, outro no coco, as mos speras, os braos cansados e os animais como companheiros do dia a dia. A vida pode ser mais simples, embora o simples nem sempre seja fcil. " mais desafiador. Voc tem de prestar ateno no que a terra est falando", diz um filosofal Kurt. " mais inteligente que s comprar fertilizante e mquinas que fazem tudo por voc." E o que a fazenda fez por mim? Bem,  difcil adotar uma vida como a que levam Kurt e Marie Louise. Mas hoje penso mais nas pessoas que fazem nossa comida. E nos animais, que tambm so seres com suas particularidades. Urbana que sou, paro mais para escutar o silncio. Observo a chegada da chuva no horizonte sem pensar s no trnsito para voltar para casa. 

PARA SABER MAIS
www.wwoof.org


